Documentário indicado ao Oscar mostra trajetória de juíza que se tornou ícone pop

Fonte: Bolívar Torres - O Globo - Cultura

Preocupados com sua imagem de isenção, juízes da Suprema Corte americana não costumam expor sua vida para as câmeras. Ainda mais quando se trata da discretíssima Ruth Bader Ginsburg, 85 anos, símbolo da luta pelos direitos das mulheres. Ela abriu uma exceção para as documentaristas Betsy West e Julie Cohen, diretoras de “RBG”. O filme, que concorre aos oscars de melhor documentário e canção original amanhã, mostra a vida íntima e familiar da juíza — até levantando peso na academia ela aparece.

Muito mais do que explorar o status de ícone pop que ela ganhou nos últimos anos, porém, o documentário resgata sua longa trajetória, desde a faculdade de Direito. Com isso, joga luz sobre o que fez antes de 1993, quando entrou na Suprema Corte. Ainda uma jovem advogada nos anos 1960 e 1970, Ginsburg pegou diversos casos que revolucionariam os direitos das mulheres diante da Constituição americana.

Antes de viajar ao Brasil, onde falará sobre cinema e jornalismo no Rio2C — Rio Creative Conference —, em abril, a codiretora Betsy West conversou com O GLOBO por telefone.

Ruth Bader Ginsburg é muito popular nos Estados Unidos, mas as pessoas não conhecem tanto os casos que ela pegou nos anos 1960 e 1970. Um dos entrevistados diz que ela chegou a “moldar a paisagem legal” para os direitos das mulheres. Por que essa parte da História é pouco conhecida?

De forma geral, a história da luta das mulheres pela igualdade não é conhecida como deveria nos EUA. Muita gente acha que as mulheres ganharam o direito ao voto nos anos 1920, e não lutaram por isso. Penso que a trajetória de Ruth faz parte dessa História obscura. Nos anos 1960, ela era uma talentosa advogada que não conseguia os mesmos empregos que os homens. Dez anos depois, quando virou professora e acadêmica, começou um projeto que derrubou diversas leis subjacentes discriminatórias, que povoavam o sistema e todos tomavam como garantidas. Eu e Julia (codiretora do documentário) achávamos que as pessoas tinham que conhecer essa história.

O que mudou a partir das diversas vitórias que ela teve na Justiça?

Hoje, quando se fala que homens e mulheres devem ser iguais perante a lei, pode parecer algo banal, mas nos anos 1970 isso era uma proposta radical. Havia muitas leis no nosso país que discriminavam as mulheres sob o pretexto de protegê-las. Elas não precisavam trabalhar até tarde, então não ganhavam hora extra. Os maridos tinham que cuidar das esposas, então elas não precisavam ter cartões de crédito... Eram leis que faziam da mulher uma cidadã de segunda classe. Ruth mexeu nesse vespeiro.

Ginsburg diz que “mudanças duradouras só acontecem a um passo de cada vez”. A trajetória dela é, de certa forma, a antítese de um tipo de ativismo impaciente, barulhento e pouco produtivo que se vê hoje?

Sim, a abordagem dela não era marchar para a rua com raiva, e sim trabalhar no sistema judicial para garantir direitos na Constituição. É uma pessoa muito estratégica. Sua mãe já ensinava: “A raiva tira o melhor de você”. Isso não significa que ela não fica com raiva das coisas ou que não vê injustiças. Mas ela pensa sempre de forma prática: “Como posso atacar essa injustiça?”. É isso que ela quer dizer quando fala em “um passo de cada vez”.

Pode citar um exemplo desse pensamento estratégico?

Nos anos 1970, ela selecionou casos de forma muito cuidadosa para provar o seu ponto de que a discriminação feria tanto as mulheres quanto os homens. Ela pegou casos em que homens também eram prejudicados por essas leis, e isso a ajudou a fazer as pessoas entenderem melhor a situação das mulheres. Com isso, promoveu mudanças profundas.

Ginsburg também se diferencia dos tempos atuais porque sempre procura consenso. Um exemplo é sua amizade com o colega da Suprema Corte Antonin Scalia, um juiz ultraconservador. Mesmo discordando de tudo, conseguiam ser amigos...

Seu approach é manter a comunicação sempre aberta. Na Suprema Corte, onde só há nove juízes, isso ajuda a trazer as pessoas para o seu lado. Isso é pragmatismo. Mas também há outra forma de ver isso, que é entender a profunda amizade que ela formou com Scalia, baseada no respeito mútuo de suas inteligências e do amor pela ópera. Eles diziam, inclusive, que discutir as suas diferenças ajudava a melhorar o argumento um do outro.

Como foi lançar um filme sobre uma juíza progressista em plena presidência Trump?

Começamos o documentário em 2015, quando Trump ainda não era candidato. Quando o lançamos, em 2018, ele já era presidente. Nesse meio tempo, a relevância de Ginsburg cresceu. Por Trump ser controverso, mais pessoas começaram a olhar para o que acontecia na Suprema Corte ( que tem poder para parar seus projetos de lei ) e para a juíza Ginsburg. Quando o filme saiu, parece que ele tocou um nervo. As pessoas saíam do cinema e diziam: “Eu estava precisando disso”. Porque Ginsburg é inspiradora e estabeleceu um padrão para decência e humanidade que fez as pessoas se sentirem bem.

A juíza viu o filme?

Sim. E ela não tinha visto antes que ele fosse exibido no Festival de Sundance pela primeira vez, no ano passado. Pedimos que ela comparecesse à sessão, e ela aceitou. Viu o filme em uma plateia de cerca de 500 pessoas.

Deve ter sido tenso para você.

Muito! Ficamos encarando-a o tempo todo durante o filme. Nem olhamos a tela. Ela riu, chorou, tirou um lenço uma hora, mas, no fim do filme, Julie e eu a chamamos para um bate-papo de 20 minutos, e alguém da plateia quis saber o que ela achou do filme. Ela disse que gostou, e fez muitos elogios.

Por que Ginsburg se tornou um ícone pop?

Pelo impacto que ela causou na maneira como vivemos, é uma das pessoas mais importantes do século XX e XXI. Mesmo que ela não tivesse entrado na Suprema Corte, ainda teria assegurado um lugar na História americana, por tudo o que fez pelas mulheres.

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