Entrevista: Susanna Lira fala sobre Rotas do Ódio

Como parte do GlobosatDay, a série de investigação "Rotas do Ódio" estará no Rio2C 2018. Coprodução entre a Panorâmica, a Modo Operante e a NBCUniversal International Distribution, a produção acompanha os desafios de uma delegacia especializada no combate aos crimes de ódio.

No domingo, 8 de abril, elenco, roteiristas, diretores e o diretor do canal conversam com o público do evento sobre os desafios da produção e a importância de levantar para grandes audiências, em uma série de ficção, um tema tão relevante como a intolerância.

 

Livremente inspirada no trabalho realizado pela Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (DECRADI) de São Paulo, “Rotas do Ódio” terá duas temporadas com cinco episódios cada. A segunda temporada está prevista para o mês de setembro. Para falar sobre a série, conversamos com a diretora Susanna Lira, que ao longo de sua carreira tem explorado temas sociais.

 

Como surgiu o projeto "Rotas do Ódio"?

A ideia da série surgiu enquanto eu filmava o documentário "Intolerância. doc". A pesquisa do documentário me proporcionou um mergulho profundo no submundo dos crimes e delitos motivados pelo preconceito. Eram tantos casos, tantas histórias, inúmeras vítimas e infelizmente tanto algozes que um documentário por si só não deu conta. Nesse universo pairava acima de tudo um nuvem de medo e vergonha e por isso foi tão difícil chegar nos personagens para o documentário. Ouvi centenas de histórias de pessoas que não queriam e não podiam revelar sua identidade seja como vítimas ou como autores dos crimes. Diante dessa pesquisa tão reveladora eu comecei a dar forma a série de TV.

 

Fale um pouco do processo de pesquisa.

Numa pós-graduação em Direitos Humanos eu descobri que o termo "crimes de ódio" não era tão um incomum como eu imaginava. O Brasil que vendia a imagem de tolerante e miscigenado para o mundo estava numa crescente escalada de crimes de intolerância. Foi então que eu cheguei na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância em SP. Na ocasião a delegada era a Margarete Barreto e ela me abriu as portas para entender e acompanhar os casos que a delegacia atendia e como era a dinâmica do trabalho dos policiais. Me deparei com uma realidade terrível, mas ao mesmo tempo uma fonte de histórias muito potentes para a dramaturgia.

 

Como a sua produtora e a Panorâmica atuaram juntas.

A Modo Operante é uma produtora consolidada e conhecida por fazer séries e longas documentais e já alguns anos eu ensaiava um parceria profissional com a Mara Lobão da Panorâmica, que há tempos já estava produzindo ficção de forma bem exitosa. Essa série foi uma oportunidade de estreitarmos a relação entre as produtoras e foi uma experiência rica e de muito aprendizado. Cada empresa usou o melhor da sua expertise e chegamos num resultado muito satisfatório.

 

Como foi a participação no pitching do RioContentMarket?

Eu tinha o projeto escrito desde que tinha participado da Oficina de Roteiristas da Globosat. Decidi inscrever para o pitching do RCM de 2014 e fui selecionada. Foi nessa ocasião que eu liguei para a Mara Lobão e a convidei para ser a produtora-executiva do projeto e defendê-lo junto comigo no pitching. Ela topou de cara e ensaiamos exaustivamente até subirmos ao palco e para nossa alegria saímos de lá com o interesse direto de três canais de TV. Foi a oportunidade que o projeto precisava para ganhar as telas do Brasil e do mundo.

 

As questões sociais estão sempre presentes na sua obra. Você acha que a ficção pode ajudar a quebrar preconceitos, mudar mentalidades?

Eu tenho uma natureza inquieta e um tanto rebelde. Por isso, acabo querendo fazer filmes sobre o que me angustia, o que me aflige. Foi assim quando fiz o "Positivas" , sobre mulheres com HIV; "Porque temos esperança", sobre ausência paterna; "Mataram nossos Filhos", sobre o extermínio da juventude negra, entre outros projetos em que há um questionamento sobre o Estado da Coisas. Eu não sei e acho que nunca vou saber se consigo mover uma palha fazendo o que eu faço, mas se eu provoquei uma conversa, uma reflexão que seja sobre essas temas, já me valeu a existência. Mais do que transformar, a arte quer provocar e é isso que eu sempre tento a cada novo projeto que começo. Eu tenho fé que a transposição da realidade pode potencializar ainda mais esse efeito e hoje faço uma transição entusiasmada do documentário para a ficção nessa busca de abrir mais janelas, entrar por outras portas e chegar de forma mais abrangente no espectador.

 

Como você vê nosso momento atual em que atos tão violentos como a morte da Marielle geram tanta mobilização e manifestações em prol da vida, da igualdade, da justiça?

Eu estudo com uma certa profundidade a questão da intolerância há pelo menos cinco anos. E desde então só vejo crescer o discurso de ódio em todas as esferas. E nós em algum grau hoje estamos contaminados por isso. Seja nos comentários nas redes sociais, nos debates políticos e em conversas de família estamos sendo levados a uma polarização que só exclui o outro. A morte da Marielle e tudo que veio depois com a tentativa de matá-la várias vezes destruindo sua reputação é um exemplo claro disso. As mobilizações foram importantes e fundamentais para mostrar que uma boa parte da sociedade se opõe a esse estado de horror. Eu queria ser mais otimista, mas a realidade me mostra que precisamos lutar de forma mais combativa contra uma cegueira e uma falta de compaixão que não só não tolera, como não suporta o outro. Eu costumo dizer que eu só tenho essa vida para viver, e tem que valer a pena. E nesse projeto de dar sentido  à minha existência eu sempre estarei ao lado de quem não tem voz, quem não tem representatividade, eu faço coro com eles em tudo que escrevo e realizo. É uma caminhada difícil, mas a arte sempre vai estar ali para nos salvar.

 

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De 3 a 8 de abril de 2018 na Cidade das Artes, Rio de Janeiro

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